Não sei o que aconteceu comigo naquele instante, mas simplesmente parei no meio do corredor do hospital. Não escutava nada e a única coisa que vi foram seus cabelos. Tão lindos. Tão linda. O que quero contar não é exatamente uma história de amor à primeira vista. Foi mais um fascínio. Quero contar como meu mundo parou em algum momento por certo motivo, o qual até hoje desconheço.
A garota dos cabelos cor-de-bronze me fitou e sorriu. Aqueles sorrisos sem graça de quando há um completo estranho te observando. Devo dizer que, quase como algo instantâneo, eu devolvi o sorriso. Ela tossiu um pouco e olhou para mim, constrangida.
- Doutor? - alguém disse, tocando no meu ombro.
- Sim? - falei, desviando o olhar.
- O senhor tem que ver um paciente na sala ao lado, esqueceu?
Voltei o olhar para a garota dos cabelos cor-de-bronze e sorri, mas ela apenas acenou e foi embora. Você deve estar pensando que ela talvez fosse um espírito, mas devo dizer que não acredito nesse tipo de coisa. Todas as noites eu a via, mas nunca tive coragem de conversar por muito tempo com ela. Meio bobo, talvez. Não foi amor à primeira vista, pois nunca mais a vi. Ah! Mas sempre me lembro dela. Sempre. A garota das belas madeixas sempre enfeita minha imaginação em dias de cansaço. Lembro-me bem de seu sorriso, mas não me lembro de ter perguntado seu nome entre as vezes em que sentei ao seu lado para tomar um copo de café.
Talvez ela tenha sumido por causa da solidão que aquele hospital traz para dentro de si. Talvez eu tenha apenas criado ela em meu pensamentos para não me afogar dentro de mim. Ela não paralisou outras pessoas. Ela não existiu para outro alguém além de mim. A garota dos cabelos cor-de-bronze desapareceu da minha realidade e continua em meu subconsciente. E eu nem ao menos sei seu nome.
Querido,
Deixei para mais tarde, sabe? E, talvez, tudo o que eu chamo de bobagem, que acabou se tornando essencial na minha vida, espera ou suma. “Tô” meio perdida nisso aqui. Não sei o que temos, não sei o que somos, nem ao menos sei se quero saber. Agora me diz, e se eu deixar para mais tarde? “Tô” deixando. “Tô” tentando. Não é fácil… já tentei viajar, mas tá tudo tão difícil. Tá tudo tão bagunçado. Não sei se consigo lidar com a confusão que é a minha vida e também não sei se consigo suportar o bolo embaralhado que você criou dentro de mim. Tá difícil, sabe? Eu tentei te falar que não ia dar certo. Tentei… com os olhos. Mandei todos os olhares possíveis, mas você insiste. E quando insisto, você não faz nada. Por que isso tudo? Acho que vou deixar pra mais tarde mesmo, sabe? Esquecer e tal… Quem sabe a gente se ajeita um dia, ou se encontra. Dói um pouco pensar a possibilidade de isso não dar em nada, então resolvi pensar nisso depois. Tô deixando pra depois. Vou amar mais tarde. Vou viajar, jogar tudo isso em uma caixa e só abrir depois de muito tempo. Afinal, mereço um tempo de descanso. Tô confusa demais. Tô angustiada demais. Tô bêbada demais. Vou jogar a garrafa de vodca fora e ir tomar uma banho de mar. E só depois, no cair da noite, vou tentar pensar em algo que resolva minha vida. Você? Quem sabe. A gente pode resolver nossa vida um dia, não pode? Por enquanto, tô aqui olhando pro céu.
Com amor, F.
Eu o encontrei enroscado nos cobertores. Estava um pouco escuro, mas ainda era possível ver tudo dentro daquele quarto. Acho que não sei bem descrever a sensação de encontrá-lo daquela forma, mas não foi boa. Ele se desenrolou e se encolheu, como se quisesse que eu soubesse que estava chegando a…